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Não confundir com Stendhal. É mesmo Estendal, esse apuradíssimo instrumento de aferição civilizacional.
O cartaz do BE é inoportuno. É mau marketing. O enfoque é negativo, seja qual for o ponto de vista: não é empático para com os católicos, não é simpático para a causa da adopção gay.
É despropositado no timing, é despropositado sobretudo vindo de quem vem. Daqui de onde o vejo, parece-me apenas um tiro palerma no pé ideológico. Ou eu não percebi nada disto, ou é mesmo o BE a apresentar como argumento oficial a existência de Deus?
A D. Dália é uma senhora de personalidade forte, esperta que nem um alho, nas suas próprias palavras. À D. Dália ninguém faz o ninho atrás da orelha. É daquele tipo de pessoas que é muito difícil de enganar, que tem sempre uma opinião firme sobre as coisas (todas as coisas) e que não tem qualquer pejo em as expressar, seja onde for, seja a quem for, porque a frontalidade é uma das suas maiores virtudes.
A D. Dália não tem muita instrução, pelas mais variadas razões lá da sua vida, mas faz questão absoluta de que isso não a iniba em nada. Pelo contrário, a universidade da vida, como costuma referir, tem-lhe dado todas as ferramentas de que necessita para percorrer o seu caminho com muito sucesso. A par da humildade com que foi abençoada, a D. Dália é uma senhora muito orgulhosa da sua maneira de ser e nunca permitiu – nunca – que descartassem ou menosprezassem a sua opinião com base na sua impreparação (ou em qualquer outro fundamento, diga-se a bem da verdade). Mais, está firmemente convencida que tem tanto direito a opinar como qualquer um e não admite a ninguém que ponha em causa esse direito, elle est charlie, ora essa, foi para isso que fizemos o vinte cinco de abril, afirma com frequência, o plural ‘fizemos’ a estufar-lhe o peito.
A D. Dália tem perfeita noção que carregará eternamente a cruz de não ser compreendida ou apreciada pela maioria das pessoas. Sabe muito bem que, a maior parte das vezes, os outros, estúpidos como são, confundem a sua intuitiva sabedoria de mulher humilde do povo com ignorância, tacanhez e atrevimento. Mas não faz mal. Ela sabe que tem (sempre) razão e essa fé inabalável proporciona-lhe a força intrínseca de continuar a brindar os outros com as suas inesgotáveis pérolas de sabedoria. Faz amiúde reparos observadores e sagazes em relação à vida das outras pessoas, percebe nas pequenas coisas irregularidades passíveis de investigação policial, suspeita de como vivem na incongruente abundância sem verdadeiramente trabalharem para isso, de como parecem indecorosas as suas rotinas, de como se orientam obscuramente em benesses injustificadas.
A D. Dália reconhece a milhas a esperteza saloia de todos os que pensam enganá-la, sabe lindamente como contorná-la e isso traz-lhe uma imensurável felicidade. Por exemplo, costuma celebrar com uma portentosa bola de berlim na pastelaria da esquina a sua consulta médica mensal, onde um chico-esperto, só porque é doutor, acha por bem amedrontá-la com os níveis dos açúcares e dos trinãoseiquê e as maldosas profecias dos achaques dos velhos. Tá bem, tá. No supermercado, compra sempre duas tabletes de chocolate. Uma para si própria, que partilha generosamente com o seu Pantufa, apesar do imbecil de veterinário lhe afirmar categoricamente que os cães não podem comer chocolate, porque o seu organismo não processa nãoseiquê. A outra, esconde-a ardilosamente debaixo da almofada do neto, quando o sabe de castigo e impedido do desfrute de quaisquer guloseimas. Sabe lá aquela parvalhona da nora como se educam crianças. Sempre a embirrar com o miúdo por conta dos palermas dos professores.
Ah, se a D. Dália mandasse, outro galo cantaria e o mundo seria certamente um lugar melhor.
Que o candidato se chame Tino.
Ter, neste caso, seria bastante mais relevante do que ser.
(Idem para a maioria dos restantes).
Os cabelos ondulados de um loiro improvável espraiam-se sobre o caderno. As unhas longas pintadas de púrpura com pequenas aplicações brilhantes tamborilam de impaciência no tampo da mesa.
“Então, como vai isso?”, pergunta-lhe a mulher com tranquilidade, magistralmente fingindo não ver o enfado evidente, tão incontornável como um elefante no meio da sala.
“Não consigo fazer”, declara com maus modos e descruza rapidamente as pernas demasiado longas. O movimento brusco faz cair o lápis, a aresta da velha mesa lascada lavra-lhe uma malha apressada nas meias de vidro pretas. O semblante cerra-se ainda mais, o nariz de bebé enruga-se de impaciência e contrariedade.
“Tem calma. Vamos lá raciocinar aqui as duas”, diz-lhe com um bonito sorriso persuasivo. “Então o João comprou um chocolate que lhe custou dois euros. Comprou também uma sandes de fiambre por um euro e cinquenta cêntimos. E depois gastou setenta e cinco cêntimos numa caixa de pastilhas. Quanto gastou o João no total, é o que queremos saber. Que tipo de conta precisamos então de fazer, hein?”, questionou, abrindo os olhos encorajadoramente.
As pestanas reviram-se-lhe impacientemente. “Sei lá. É de «vezes»?”
A respiração agita-se involuntariamente, mas a serenidade mantém-se. “Não, repara: ele gastou dois euros, depois um euro e cinquenta cêntimos e finalmente setenta e cinco cêntimos. Ora para sabermos quanto foi a despesa t-o-t-a-l, que conta precisamos de fazer?”
“Ok, temos de… errrrr… dividir”, arrisca sem convicção, o olhar arredio concentrado nas minúsculas cutículas esgaçadas à volta das unhas.
Engoliu com esforço o ar que lhe engulhava a garganta e tossiu levemente para ganhar tempo e calma. Enunciou pausadamente, como quem reza para enxotar o demónio: “Ora pensa lá bem: ele gastou dois euros – MAIS - um euro e cinquenta cêntimos – MAIS - setenta e cinco cêntimos. Então, para saber quanto é a primeira quantia, MAIS a segunda quantia, MAIS a terceira quantia, que tipo de conta precisamos de fazer?”
Fechou as mãos com força e encolheu-se involuntariamente à espera do imprevisível desfecho.
“Pronto, já sei: é uma conta de «mais» ”, anunciou com desdém. E antes que o júbilo do triunfo inundasse a sala, disparou, contrariadora: “mas não me apetece, vou fazer de «menos».”
O Verão tardio afogueia ainda o pôr-do-sol. O pátio do jardim já se calou de risos e brincadeiras. Os baloiços quedam-se no merecido descanso, prontos para folgar no manso da noite. Lá dentro, as salas e corredores repousam na penumbra, um cheirinho bom a asseio solta-se do chão ainda molhado.
Junto à portaria, duas mãozinhas de dedos gordinhos enrodilham-se na rede, formando pequenas flores assimétricas de minúsculas unhas pintadas de cor-de-rosa. Um vestidito amarelo, estampado com diminutas gaiolas multicores, esvoaça na brisa e exibe, despreocupado, os vincos e máculas de um dia no jardim-de-infância. Na fronte transpirada, misturam-se as farripas húmidas da franja com os sulcos vincados dos arames, no esforço de vislumbrar para além da rede.
“Ó Cilinha, vês alguma coisa, vês?”, pergunta mais uma vez. Que não, responde-lhe a Cila. Que há que ter paciência, torna-lhe, com um sorriso encorajador. “Mas é muito tarde, pois é? Vai ser noite, não vai? E nós vamos ficar aqui as duas sozinhas e eu tenho medo!” As sobrancelhas ralinhas formam um arco de genuína preocupação. “Calma, querida. A mamã já vem. Está quase, quase a chegar.” “Está quase a chegar”, murmura a Cila mais para si própria do que para a petiza, numa tentativa infrutífera de persuasão conjunta.
O sol está prestes a pôr-se no fundo da rua tranquila. Os espaços de estacionamento estão quase todos desocupados. Os passeios vazios ladeiam a rua larga, já preparada para o sossego desabitado da noite. Os olhos da Cila cravam-se na curva ao fundo da estrada, enquanto mentalmente desfia o ror de coisas que ainda tem de fazer, as desoras que são, a sua sina de corrupiar. A menina choraminga. A mulher faz-lhe uma festa no cabelo. “Olha, Ana, vem lá a mamã!”
A Ana enxuga as lágrimas com as costas da mão, limpa de caminho o nariz, saltita para tentar ver. Já o automóvel sobe a rua, garboso e luzidio, e estaciona desafogado na frente do recinto. A mamã da Ana desce do veículo apressada e sorridente. Na atrapalhação da correria, cai-lhe ao chão a sacola, dispara o frasco de protector solar, os óculos de sol aterram –afortunadamente- em cima da toalha de franjinhas, a revista esventra-se no pavimento.
A Ana estanca, fraccionada pela alegria de ver a mãe e a necessidade de apreender o insólito da situação, o semblante fechado da Cilinha. “Desculpe, D. Cila”, diz a mamã, ao mesmo tempo que atabalhoadamente apanha do chão a parafernália, “atrasei-me um bocadinho…” A D. Cila, aperreada pela vontade (não concretizável) de lhe dizer duas ou três coisas, arremessou: “um bocadinho é como quem diz, não é? É que o Jardim já fechou há quase duas horas, sabe? E só cá fiquei eu com a menina!” Ainda adiantou “E já não é a primeira vez que…”, mas a voz morreu-lhe na distracção de observar as revoadinhas de areia a soltarem-se das sacudidelas da toalha.
Resignada, voltou as costas para fechar o portão. Ainda ouviu a vozinha magoada da menina “Ó mamã, foste à praia? E não me levaste?” e sentiu a sua indignação a afundar-se numa vaga imensa de compaixão e tristeza.
Atravessou a rua e parou no passeio da avenida larga, inundada de sol radioso e castigador. Ao contrário da maioria, não se importava de não estar de férias nesta altura do ano. Lisboa em Agosto transformava-se de cores e ritmos, tornava-se mais fluída, mais livre e mais enigmática, mesmo (e sobretudo) para quem a conhecia de olhos fechados. O calor intenso esmorecia o frescor da camisa branca acabada de vestir. Alisou com as mãos transpiradas a saia azul e recuou alguns passos, até sentir a sombra generosa do jacarandá. Ao longe avistou o autocarro da empresa e, contrariada, voltou a aproximar-se da berma.
«Bom dia, menina», cumprimentou o motorista com um sorriso tranquilo. »Bom dia, Sr. Zé», respondeu com genuíno agrado. Gostava de trabalhar com o Sr. Zé, alentejano de mãos ossudas e marcadas, testemunhas de anos de lavra e plantio, algures numa encarnação anterior à fuga para a cidade grande.
«Então, menina, o que temos hoje?» cantarolou no maravilhoso sotaque da sua terra. «Não sei, Sr. Zé. Sabe como é o Verão, não sabe? Nunca sabemos o que nos espera. Hoje está tanto calor… Gostava que me calhasse um grupinho pacato e simpático. Isso é que era.» O Sr. Zé acenou em concordância e conduziu mansamente na direcção do rio.
Assim que o autocarro se imobilizou junto ao cais, viu várias mulheres de blusa branca e saia azul idênticas às suas, rodeadas de pequenos grupos de pessoas que as escutavam e seguiam como pintainhos curiosos. Reconheceu a voz da supervisora que disparava enérgicos ‘Bons Dias’ em todas as direcções. «Olá, olá», dirigiu-se-lhe com despacho, «aquele é o seu grupo, vêm do cruzeiro dos Estados Unidos, portanto, o seu tour hoje é em Inglês.»
Olhou na direcção indicada pela sua chefe e respirou fundo. À sombra exígua de um toldo, cerca de vinte turistas ruidosos e alegres conversavam animadamente. Os mais velhos, manifestamente incomodados com o calor desmoderado, refrescavam-se com os folhetos turísticos e mapas da cidade, que agitavam na frente dos rostos transpirados. Algumas crianças davam corridinhas nervosas e falavam alto, reclamando a atenção incondicional dos adultos. Todos acolheram com agrado o convite para entrar no autocarro e dar início à visita guiada.
A manhã foi escorrendo como de costume. A voz suave e colocada ia soltando as habituais referências históricas, informações e curiosidades acerca dos locais e monumentos de Lisboa, tornando-se cada vez mais automática e monocórdica, à medida que o descaso da plateia se ia tornando mais evidente. Atrás dela, os turistas cavaqueavam em voz alta, cruzando conversas de um banco para o outro, de trás para a frente, de um lado para o outro, as crianças a fazer valer os seus queixumes à força de gritos.
O seu olhar cruzou com o semblante embaraçado do Sr. Zé. Respondeu com um sorriso agradecido à careta simpática de solidariedade que ele lhe enviou e encolheu os ombros. Atrás de si, uma voz interrompeu-a. Uma das senhoras inquiria acerca da existência de shopping areas em Lisboa e logo aventou a possibilidade de visitar um mall antes de regressar ao navio, no que foi fervorosamente apoiada pelas restantes. Os senhores, demasiado exauridos para verbalizar opinião, soltavam pequenos balidos encalorados e olhavam cobiçosos na direcção das esplanadas do Campo das Cebolas.
Subitamente, desponta o alvoroço. As crianças soltam gritinhos pasmados, dedinhos em riste, frontes coladas ao vidro, as senhoras cochicham perplexas. Uma delas, mais afoita, questiona: ”ó menina, não foram vocês portugueses que descobriram o Brasil?». A menina trocou uma olhadela aturdida com o Sr. Zé e acenou afirmativamente. A senhora, cada vez mais aguerrida, continuava: «ó menina, não são vocês portugueses que se fartam de se vangloriar de serem grandes marinheiros e terem descoberto o Brasil?», insistia, na sua característica pronúncia nasalada. Cada vez mais intrigada, a menina murmurou um cauteloso e arrastado sim. «Aha! Grande coisa!» declarou com exaltação, «grande, GRANDE coisa, a sério». E levantou-se, triunfante, apontando lá para fora: «olha a grande dificuldade! É mesmo já ali! Até se vê daqui o Cristo Rei! A sério, a sério, que descoberta tão difícil», escarneceu, coradinha de satisfação.
A menina emudeceu, o raciocínio encalhado. Não sabe precisar quanto tempo passou neste marasmo lerdo e só se lembra de ter despertado da dormência e dar por si a limpar afanosamente o pára-brisas do autocarro, para onde voaram todas as gotas de água que o Sr. Zé cuspiu a alta velocidade, quando inusitadamente se engasgou.

De maneira que está na hora de voltar à compostura laboral e dizer adeus às tolices estivais. Acabam-se os petiscos tradicionais ‘enriquecidos’ com um twist de modernidade: os gelados de chouriço e caramelo, os pastéis de bacalhau kitados com queijo da serra, as bolas de Berlim camufladas com alfarroba. Abandonemos as farturas light, as limonadas de morango, os sorbets de sushi, as laranjadas de ananás, as peixarias que vendem hamburgueres. Vamos a acabar com os sunsets à beira de swimming-pools em resorts faustosos, rodeados de luxuriantes pinhais de eucaliptos. Ó silly season, ainda agora chegas-te e tão depressa te fostes!
Quando a senhora chegou, estavam já várias pessoas na sala de espera. Disse um “boa tarde” baixo, mas cristalino e olhou em volta, à procura de um lugar vazio num dos sofás robustos e sóbrios, forrados a veludo verde-escuro. Trazia um tailleur beige irrepreensível, que combinava na perfeição com as madeixas de um louro acinzentado que lhe repousavam, imóveis, sobre os ombros. Pela mão, trazia uma coisinha pequenina de caracóis castanhos e enormes olhos pestanudos.
“É só um momento, minha senhora, o Sr. Doutor já vai recebê-la”, informou a recepcionista com cortesia. A senhora assentiu em silêncio, sentou-se na beira de um dos sofás, baixou o olhar e disse: “Sebastião, sente-se aqui.” Pegou ao acaso numa das revistas da mesinha e começou a folheá-la com ar enfastiado e indiferente.
O Sebastião, que aguentara sentado não mais de trinta segundos, levantou-se, abandonou a PSP com descaso na dobra do sofá e – como que possuído por uma força oriunda de poderes do oculto – pintou a manta.
O Sebastião pulou em cima dos sofás (mesmo dos que já estavam ocupados por outras pessoas) ao melhor estilo olímpico, fez equilibrismo nas costas dos cadeirões, saltando de um para outro e daí para cima da mesa e vice-versa, viajou de reposteiro em reposteiro, qual Tarzan perseguido por uma praga de pulgas, abriu e fechou as gavetas da secretária da recepção com a delicadeza de um rinoceronte, atendeu e desligou o telefone as vezes que muito bem lhe apeteceu, gritou como um bezerro desmamado quando entalou o dedo numa gaveta do arquivo (ainda está por apurar se a recepcionista terá sido totalmente alheia a este infeliz acontecimento), cantou a plenos pulmões, mal se esqueceu do incidente digital, cuspiu na senhora antipática que não o deixou mexer nos óculos - e ainda distribuiu, democrática e persistentemente, pontapés por tudo o que mexia e não mexia naquela abençoada sala de espera.
A mãe do Sebastião regressava, de quando em vez, daquele mundinho secreto só dela, para murmurar: “Sebastião, esteja quieto”, “Sebastião, oiça, isso não me parece bem”, “Sebastião, isso não são modos”…
E só entendeu dirigir, magnânima, algumas palavras à plateia catatónica, quando a PSP voou, certeira, das mãozinhas gorduchas do Sebastião, para embater em cheio nas pernas do senhor pálido e ansioso que se sentava, encolhidíssimo, no canto mais recôndito da sala.
“Ai este meu filho… é uma criança muito especial”, suspirou. “É muito temperamental, tem um carácter muito forte, uma personalidade vincadíssima! Émuito obstinado, ninguém consegue convencê-lo a fazer o que não quer!”, declarou, num misto de resignação e orgulho.
E quando, instantes depois, estando o querido Sebastião em “Godzilla mode” a esmigalhar lápis de cera à força de patadas com as delicadas botinhas ortopédicas, a recepcionista chegou com a bendita libertação: “O Sr. Doutor vai recebê-la agora”, a senhora adentrou, elegante e segura, levando a cria pela mão, deixando a plateia estarrecida, de olhar perdido no vazio, numa tentativa desesperada de estabilizar a pressão arterial.
As pessoas que cuidam que hoje em dia a escolaridade é madraça e facilitista e que “no seu tempo é que era” não podiam estar mais longe da verdade. Basta que duas ou três alminhas se juntem à mesa de um café, numa paragem de autocarro ou fila do supermercado, para que, em a conversa versando a educação, comece o rosário cantado dos belos tempos da sua “instrução primária”: todos lembram com saudade lacrimosa o rigoroso debitar das dinastias, a enunciação firme e determinada dos rios e afluentes, distritos e concelhos, a descriminação aturada de linhas, estações e apeadeiros dos caminhos-de-ferro, as sessões solenes de reprodução fiel de preposições, pronomes e advérbios, a severidade dos ditados e a crueza dos castigos.
Agora os miúdos não sabem nada, diz-se. Vale mais uma quarta classe “daquele tempo” do que o nono ano agora, defende-se a pés juntos. Alambazamo-nos de galhofas em reality shows, discursos políticos, debates televisivos e outros enquadramentos mediáticos onde figuras públicas arremessam calinadas de todos os tipos; apontamos exemplos caricatos de pessoas “famosas” que perversamente o são tão-somente porque debitam asneiras como perdigotos - e vamos contribuindo para a validação do paradigma.
Contudo, as razões que propiciaram a disseminação nas últimas décadas deste pouco contestado mito urbano (também eu quero usar a terminologia da moda) devem muito pouco ao facilitismo da vida académica.
Qualquer pai ou mãe que tente acompanhar / ajudar um jovem aluno desde os primeiros anos da sua escolaridade sabe do que falo. Porque já enfrentou (aposto que ingloriamente muitas das vezes) conteúdos de complexidade sinuosa, vertidos em programas extensíssimos e frequentemente inexequíveis, enunciados mediante um acordo ortográfico controverso e falacioso. A bem da verdade, nenhuma das gerações anteriores enfrentou cargas horárias e currículos escolares tão pesados quanto os que estiveram /estão em vigor nos últimos anos.
O Ivan entrou na sala chamando a si todos os holofotes, como sempre faz: a porta aberta de rompante, as cabeças a virarem-se, o discurso interrompido do professor. Caminha bamboleante e desarticulado, os ombros puxados à frente, como se fosse defender-se de um golpe a qualquer instante. A camisola de mangas à cava, de um vermelho puído, demasiado grande para o seu corpo de rapazelho franzino, espicha nas pontas com os vincos das molas do estendal. Nas sapatilhas, uma arrojada combinação de cores berrantes que atrairia todas as atenções, não fora o cheiro pestilento a peúgas em decomposição que delas voluteava a roubar para si todo o protagonismo.
Arrastou a cadeira teatral e ruidosamente e sentou-se de viés, com as pernas esticadas e afastadas, um braço apoiado no encosto da cadeira demasiado pequena, numa pose descontraída de esplanada. ‘Qué que foi?’, lançou para a plateia, a curva da sobrancelha levantada, os lábios arrepanhados a um canto num sorrisinho pretensamente sarcástico.
Na frente da sala, o professor, perdida a linha de raciocínio, apercebe-se do braço imóvel a caminho do quadro e deixa-o repousar ao longo do corpo. Os seus olhos cruzam-se com os do Ivan, como num duelo ao entardecer. A cena não é nova, é recorrente e cansativa.
Desde que começou o ano escolar, o Ivan já recebeu todos os castigos que a escola tem para comportamentos como o dele. Já ouviu repreensões de todos os professores, da directora de turma, do director da escola; já foi expulso da sala em todas as disciplinas, já foi castigado com tarefas na escola, já foi suspenso três vezes: primeiro um dia, logo em Outubro, depois três no segundo período e finalmente oito dias. Nenhum destes castigos o incomodou, assim como lhe será completamente indiferente o que o professor lhe disser ou fizer agora. Todos naquela sala, todos naquela escola, sabem disso. O Ivan tem dezasseis anos e está, pela terceira vez, no sétimo ano. Também reprovou uma vez no quarto, outra no quinto.
Não há nada na escola que o Ivan valorize. Não conhece ninguém para quem a escola tivesse sido uma mais-valia. Não consegue lembrar-se de uma pessoa – nem umazinha - cujo sucesso na vida admire ou cobice e que tenha tido o percurso escolar como ponto de partida. Acalenta secretamente o sonho de ser rico e famoso, de preferência antes dos vinte. Não sabe ainda bem como vai conseguir tal proeza, mas imagina-se a passear-se pelo bairro, em noite quente de arraial, a cumprimentar vizinhos e conhecidos que lhe dão palmadinhas nas costas e a quem paga cervejas e caracóis e frangos assados, como o primo Edgar, que cedo deixou a escola (lá está!) e foi trabalhar de servente de pedreiro para a França, de onde volta a cada a verão, a transpirar ‘eurrôs’ por todos os poros.
O Ivan não sabe como vai conseguir concretizar os seus sonhos, mas tem a certeza que o caminho para o futuro farto que ambiciona para si não passa pela escola. Também não sabe como irá o professor reagir desta vez, mas o descaso empossa-o de uma exaltação libertadora de super-herói: ainda o professor não esboçou um gesto e já o Ivan agita no ar os braços, brindando o respeitável público com dois portentosos piretes.